António Mosso
A realidade espiritana em BH e Minas Gerais
Faz perto de três meses que larguei as minhas amarras e deixei o meu barco navegar para o Brasil, mais concretamente para a Cidade de Belo Horizonte, capital do Estado de Minas Gerais. Aqui somos apenas dois, eu e o P. Luís de Oliveira, a viver na paróquia da Nossa Senhora da Glória, mas contamos com a ajuda constante do Padre Geraldo, um padre holandês com muito vigor e animação, e da leiga espiritana Lúcia Magalhães. A paróquia está situada num bairro da periferia da grande cidade, de classe média-baixa, que apesar de ter apenas 6 km2 tem uma população que ronda os 40 000 habitantes.
Esta é uma zona de grande tradição espiritana. Aqui os missionários de origem holandesa fizeram um amplo trabalho que abrangia várias áreas, desde trabalho espiritual e pastoral até à educação, trabalho que pouco a pouco acabou por ser abandonado, devido ao envelhecimento dos “confrades” holandeses. No Estado de Minas Gerais existem ainda outras presenças espiritanas, em Contagem, Governadores Valadares, Itaúna, Araújos, Sete Lagoas e Pompeu, paróquias onde trabalham padres espiritanos holandeses.
A religiosidade visível
Uma das primeiras realidades que me impressionou aqui na paróquia foi o número de “igrejas” que existem, um número que na minha mentalidade de recém-chegado achei excessivo. Nas voltas que dei pela paróquia encontrei cerca de 10 igrejas diferentes, tais como a Igreja Baptista, a do Evangelho-quadrangular, a Presbiteriana, entre outras. Encontramos igualmente esta realidade nas pessoas, a palavra “Deus” se encontra presente em todas as situações, nas boas e nas más, como consolo, como auxilio ou como graça. A convivência entre as várias Igrejas é pacífica, em alguns casos até cooperante nos aspectos que muitas vezes são transversais a todas elas. Mas também há uma face negativa, algumas vezes encontramos um certo sincretismo religioso, a mistura de algumas práticas religiosas com o catolicismo, e o frequentar outros locais que não a Igreja Católica.
As comunidades sectoriais
Outra realidade que me marcou foram as comunidades sectoriais, pois foi uma forma nova de viver como paróquia. Na "Ponte 2007" em Moçambique já havia tido a experiência de encontrar uma paróquia dividida em pequenas comunidades de base, mas aí tudo era diferente, com distâncias maiores, o deficit de padres para responder ao trabalho pastoral exigido, etc.. Aqui as comunidades sectoriais nasceram devido à tipografia do terreno, morros ondulados que prejudicam a participação do povo na vida da paróquia. A solução foi dividir inicialmente a paróquia em 8 sectores, sendo que atualmente são 9. Nestes sectores as comunidades deveriam crescer na fé, na comunhão e na oração. Quando cá cheguei tive a oportunidade de correr todos os sectores, em eucaristias que eram realizadas na casa de um morador do sector, momentos que me fizeram recordar as primeiras comunidades cristãs que se reuniam em casas e a Igreja estava no meio do povo e em suas casas. Nos sectores temos também os círculos bíblicos, momentos de oração comunitária onde também há um espaço de estudo bíblico e partilha da palavra.
O projecto Rosa Azul
Nestes meus primeiros tempos de estágio houve um projecto que me despertou a curiosidade e a simpatia, o Projecto Rosa Azul que trabalha com pessoas portadoras de necessidades especiais. Um espaço fundado em 1991, que pertence às obras sociais da paróquia e onde crianças e adultos recebem um pouco de carinho e atenção que talvez não podem receber em casa devido à ocupação dos pais ou familiares. O meu contacto com elas fez que descobrisse que muitas, apesar da profundidade da sua deficiência, são pessoas sensíveis ao que passa em seu redor, pessoas capazes de partilhar as suas emoções, sonhos e desejos por formas pouco comuns. E é a dedicação das poucas funcionárias que ali trabalham que permite que essas formas pouco comuns de comunicar sejam transformadas em formas de relação concreta.
Próximos passos
Os meus próximos passos passam pela Pastoral da Saúde, uma pastoral que se enquadra na forma de ser espiritana, pois tem como objectivo evangelizar com renovado ardor missionário o mundo da saúde, à luz da opção preferencial pelos pobres e enfermos, participando na construção de uma sociedade justa e solidária a serviço da vida. Esta pastoral está um pouco adormecida, e por proposta do P. Luís, irei trabalhar com a Lúcia Magalhães na reorganização desta pastoral, de modo que ela responda aos apelos da CNBB.
Aqui, como no resto do país, vive-se um clima de insegurança, o que faz com que as casas sejam rodeadas de altos muros, muros que impedem os ladrões de entrar, mas também impedem que se conheça o que está por detrás deles. Assim vejo nesta pastoral uma oportunidade de derrubar esses muros, de abrir portas, entrar onde talvez seja difícil entrar e levar o rosto de Cristo, uma forma diferente de viver o lema “estar perto dos que estão longe, sem estar longe dos que estão perto”.
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